
CAPÍTULO I
“A moral Kantiana carece de um fundamento sólido, pois a Razão Prática e o Imperativo Categórico são suposições injustificadas, infundadas e inventadas (...) numa forma sumamente artificial”
Schopenhauer
Schopenhauer dedica metade da presente obra por criticar os fundamentos da ética dada por Kant; primeiramente, Schopenhauer elogia Kant por ele ter purificado a ética de todo eudemonismo, ou seja, felicidade; a ética da felicidade era pregada pelos filósofos antigos como Epicuro e Zenão de Cítio: a finalidade da vida humana é a felicidade; já os modernos pregavam uma ética da salvação; e Kant pregava uma ética fundada no dever, no cumprimento da lei moral, que possui sua forma a priori.
Segundo Schopenhauer, a moral Kantiana carece de um fundamento sólido, pois a Razão Prática e o Imperativo Categórico “são suposições injustificadas, infundadas e inventadas (...) numa forma sumamente artificial”, além disso, Schopenhauer acusa Kant de pegar de empréstimo da teologia os conceitos de lei, mandamento e dever, uma moral que ordena.
Voltando a questão da eudemonia, Schopenhauer diz que Kant “solenemente expulsou (a felicidade) como heterônoma pela porta de entrada se seu sistema e que de novo a esgueirou sob o nome de ‘Soberano Bem’ pela porta dos fundos”; ainda, que o imperativo categórico é uma “petição de princípio” (falácia), pois já considera suas premissas como verdadeiras e, também, uma “contradictio in adjecto”, pois substitui mandamentos, leis e obrigações por absoluto ou categórico.
No capítulo cinco: “Sobre a admissão dos deveres em relação a nós próprios, em especial” Schopenhauer critica Kant sobre o suicídio dizendo que “se houver reais motivos genuínos contra o suicídio, eles jazem, em todo o caso, bem no fundo e não podem ser alcançados com a sonda da ética costumeira, mas se referem a um modo de consideração mais alto” e acrescenta que o autodever é, senão, as regras de prudência e dietéticas que não pertencem à moral, propriamente ditas. Neste mesmo capítulo o autor de Parerga e Paralipomena diz que do onanismo (masturbação), da pederastia (homossexualidade) e da bestialidade (ato sexual de seres humanos com animais) – que são formas de proibição da luxúria contra a natureza – a única transgressão sexual que pertence ao debate ético é a pederastia “pois a injustiça consiste na sedução do jovem e inexperiente que, em conseqüência, será corrompido física e moralmente”.
Como foi dito anteriormente, Schopenhauer não acredita que o fundamento da moral kantiana fundado numa “proposição sintética a priori de mero conteúdo formal” seja o fundamento genuíno da moral, nem no dever, que é a pedra guia para Kant: “o valor do caráter só se institui quando alguém sem simpatia no coração, frio e indiferente ao sofrimento de outrem, realiza boas ações não nascidas, na verdade, da solidariedade humana, mas apenas por causa do enfadonho dever” que Schopenhauer ironiza e chama de moral do escravo que segue a lei por medo; o amor ou qualquer outro sentimento nascido no coração não tem lugar na moral kantiana, mas tão somente a necessidade de uma ação por respeito diante da lei. O pensamento de Schopenhauer é diametralmente oposto ao de seu antecessor, para Schopenhauer o que conta é a intenção de fazer uma ação moralmente boa, tanto é que - segundo o autor – sempre que seres humanos discutem se uma ação é moralmente boa ou não o que é levado em conta é a intenção que a pessoa teve ao praticar tal ação.
Schopenhauer acredita que é impossível seguir o imperativo categórico kantiano porque o homem teria que “por si só” (do nada) elaborar, aplicar e conformar-se com essa lei a priori para a sua vontade, também acredita que Kant teve de ter consciência, em silêncio, da inadmissibilidade, da não possibilidade de seu fundamento que só consiste em “conceitos totalmente abstratos e sem conteúdo”
Seguindo a critica, no capítulo sétimo da presente obra, Schopenhauer, reitera que a moral kantiana não pode convencer um indivíduo de não suicidar-se, pois o cotidiano mostra que quando um indivíduo passa por gigantescas dificuldades nem o Estado e nem a lei moral kantiana são obstáculos para ele realizar o suicídio.
É interessante notarmos que é difícil precisarmos “A Natureza Humana” visto que quando achamos que somos seres racionais atacamos a nossa própria vida. Quem já vil um animal (um cão, por exemplo) suicidar-se? Se refletirmos é mais fácil dizermos que os animais são mais sensatos que o próprio homem que comete suicídio diretamente, ou suicida-se degradando o meio ambiente.
“Age somente segundo a máxima que possas ao mesmo tempo querer que valha universalmente para todo ser racional” essa é a máxima kantiana que - segundo Schopenhauer – não é o próprio princípio moral, mas apenas uma regra heurística; outro problema enxergado por Schopenhauer é a questão do possa-querer: para seguir o imperativo categórico o ser racional tem que ter uma motivação, e de onde vem esta motivação? De onde o ser racional busca praticar o imperativo? Do nada? Diz Schopenhauer que esta motivação surge do egoísmo e “é impossível que surja do outro lugar”
O egoísmo – diz Schopenhauer – é o sentimento que faz com que o homem se movimente no mundo, ele (o egoísmo) quem “se senta na cadeira do juiz e que faz pender a balança” e depois de analisar toma as decisões.
Em Schopenhauer encontramos os termos ativo e passivo, estes termos podem ser interpretados como o homem que pratica ação moral (ativo) e o homem que sofre a ação moral (passivo), por isso o egoísmo pesa bem as suas decisões, pois essas mesmas decisões valem para si mesmo, o exemplo dado pelo autor é o da mentira: “que eu não poderia querer uma máxima universal para mentir, porque então não se acreditaria mais em mim ou eu seria pago na mesma moeda”, por isso Schopenhauer diz que o dever moral repousa verdadeiramente sobre a reciprocidade; por isso Schopenhauer cita Kant reformulando o imperativo, Kant: “age sempre de acordo com a máxima cuja universalidade como lei tu possas querer ao mesmo tempo, é a única forma de não haver contradição”
Sobre o conceito de “fim em si mesmo” kantiano, Schopenhauer rotula como uma “contradictio in adjecto”: pois todo valor é um valor em comparação a outro, “não em si mesmo” é como se falássemos em um “amigo em si”, “inimigo em si”, “acima ou abaixo em si”.
Segundo Kant, a autonomia da vontade universal legisladora é livre de todo interesse e que constitui o “reino dos fins”; Schopenhauer expressamente diz que é “uma vontade sem motivo, um efeito sem causas”. Para Schopenhauer interesse e motivo são dois conceitos importantes e intercambiáveis, pois todo interesse tem que haver um motivo e vice-versa, logo, ter uma vontade livre de todo interesse é absurdo.
Schopenhauer encerra o capítulo oitavo reiterando que Kant dispensou todo fundamento seguro e real, que sua moral é no fundo uma inversão da moral teológica, um disfarce em formas bem abstratas e aparentemente encontradas a priori e o próprio Kant enganou-se, pois tomou ingenuamente a conseqüência pela razão e a razão pela conseqüência, e encerra com uma imagem:
“se me fosse permitida, no final desta árida investigação, cansativa até para o leito, uma frívola analogia, compararia Kant, naquela automistificação, com um homem que, num baile de mascaras, corteja toda noite uma beldade mascarada, na ilusão de ter feito uma conquista. Até que no final, ela tira a máscara e se dá a conhecer como sua mulher”
(SCHOPENHAUER, 1840: 86).- No capítulo nove Schopenhauer critica a “Doutrina kantiana da Consciência” exposta nos ”Princípios metafísicos da doutrina da virtude”; para o autor da “Crítica da Razão Pura” a consciência se dá a priori, mas para o autor de “O Mundo como Vontade e Representação” a consciência se dá a posteriori, ou seja, depois da ação. O saber do homem sobre aquilo que fez: a consciência; segundo Schopenhauer a consciência tira sua matéria da experiência o que não pode fazer o suposto imperativo categórico por ser puro a priori.
Kant teoriza que a consciência a priori é como um tribunal interno do sujeito, o sujeito é acusador e juiz de si mesmo e que essa mesma consciência não permite que o sujeito desrespeite as leis formuladas por ele mesmo; Schopenhauer diz que essa consciência a priori é um tribunal que não funciona, pois, na realidade, no cotidiano, de modo inverso a efetividade da consciência é substituída pela religião positiva que impõe regras e castigos.
Sobre a liberdade, Schopenhauer concorda com a teoria kantiana que prega a responsabilidade das ações humanas: “Só somos, pois conscientes da liberdade mediante a responsabilidade: onde esta se encontra aquela também tem de se encontrar, a saber, no ‘esse’”.
Para Schopenhauer – assim como para Kant – o homem não é livre para fazer o que lhe “dá na telha” ele age por necessidade: a vontade humana age por necessidade; a “liberdade” que o homem pensa ter repousa no seu caráter inteligível, ou seja, no seu “caráter” que Schopenhauer chama de “esse”. Como o homem age por necessidade (cada coisa no mundo age de acordo com aquilo que ela é) “e por tanto seguindo o restante da natureza seu caráter é imutável, que, todavia, é bem individual e, em cada um, é outro”, o que Schopenhauer quer dizer com estas palavras? É simples, apesar da natureza humana ser imutável em cada pessoa ela é outra (“esse”) e, ai é que está a “liberdade”.
A citação que Schopenhauer faz de Platão (segunda metade do livro décimo da República) sobre o escrito de Porfírio, no final do capítulo 10, é bem esclarecedor, nele podemos ter ideia de como o autor pensa a liberdade do homem: que a alma após escolher o corpo não tem total liberdade, mas somente aquela de que o organismo possui - necessidade.
Schopenhauer encerra a primeira parte da obra com uma severa crítica à ética de Fichte dizendo que a mesma é um espelho de aumento dos erros kantianos que, Fichte é um “João-bobo” que repetiu tudo o que Kant disse, que a única vantagem de sua obra: “A Doutrina-da-Ciência” – é de ter apenas 46 páginas, etc.; em geral, Schopenhauer faz duras observações a Kant, Fichte, Schelling e Hegel e essas críticas fez com que a Academia Real Dinamarquesa não desse a ele o merecido prêmio.
Em suma, percebemos que a ética Schopenhaueriana é totalmente oposta da moral Kantiana, enquanto para Kant a moral é a priori, baseada no dever, no obedecer à forma da lei, na necessidade, etc.; para Schopenhauer a moral deve ser a posteriori, baseado em fundamentos empíricos, na intuição a posteriori, na natureza humana.
Burgueses X Proletariados
MANTOUX, Paul. Revolução Industrial. Capítulo III: A Revolução Industrial e a Classe Operária Resumo Este capítulo trata especificamente dos proletariados, como eles reagiram ao surgimento de novas máquinas na linha de produção e como eram as condições de trabalho no interior das grandes indústrias. Citações 1- “Conhecemos os sentimentos de desconfiança e cólera provocados, entre os operários, pelo aparecimento do maquinismo. Sua luta contra as máquinas e, em geral, contra todas as inovações técnicas é o episódio mais conhecido de toda essa história.” 2- “A repressão foi rápida e enérgica: as tropas enviadas de Liverpool dispersaram sem dificuldade os revoltosos. Alguns foram presos, processados diante do grande júri do condado e condenados à forca.” 3- “Aos protestos contra a máquina se misturava a raiva contra a fábrica. A repulsa que ela inspirava é facilmente compreensível. Para o operário habituado ao trabalho a domicílio ou ao trabalho da pequena oficina, a disciplina da fábri...
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