
CAPÍTULO II
“Esta compaixão sozinha é a base efetiva de toda justiça livre e de toda a caridade genuína”
Schopenhauer
Na segunda parte da obra: “Sobre o fundamento da moral”, Schopenhauer diz que o egoísmo é a motivação principal e fundamental tanto dos homens quanto dos animais; o egoísmo é que faz com que o homem preserve sua vida e enxergue nada além de seu eu.
Para o autor as motivações antimorais são o egoísmo e malevolência ou ódio. O que primeiro combate o egoísmo é a justiça espontânea juntamente com a cordialidade que é uma negação convencional e estimulada pela sociedade; a malevolência (colisão inevitável dos egoísmos) é combatida com a virtude da caridade. Schopenhauer subdivide a malevolência em três graus, a saber: em baixo grau ela é habitual no dia a dia das pessoas; em médio grau ela se transforma em inveja que nenhum homem está livre dela e em alto grau a malevolência torna-se alegria maligna que segundo Schopenhauer é diabólico. Inveja e alegria maligna são apenas de cunho teórico as suas versões práticas são, respectivamente, maldade e crueldade.
Nas motivações antimorais Schopenhauer reitera que buscar o fundamento da moral é um trabalho:
“filosófico sobre a natureza humana e independente de toda explicação mística, dogmática, religiosa, hipostaticamente transcendente e exige ser provada quer na experiência externa quer na interna”
SCHOPENHAUER, 1840: 129).
- Se fizermos um esquema das motivações antimorais ficaria semelhante a este:
Potencias Antimorais
1) Egoísmo [mais animal] (oposto: Justiça)
2) Malevolência [mais diabólico] (oposto: Caridade)
a) Habitual
b) Inveja (Humano) [na prática: Maldade]
c) Alegria Maligna (Diabólico) [na prática: Crueldade]
- É interessante notarmos que Schopenhauer nas entrelinhas lança uma teoria do Estado na página 123 ele diz:
“Estaria assim na ordem do dia, para a incontável multidão de indivíduos ‘a quem de todos contra todos (...) para a desgraça de todos’. Por isso a razão reflexionante descobre bem depressa a instituição do Estado, que surgindo do medo recíproco dos homens diante de suas forças recíprocas, evita tão amplamente as consequências prejudiciais do egoísmo geral quanto se pode fazê-lo por vias negativas”
(SCHOPENHAUER, 1840: 123).
- E em outra passagem:
“O Estado, cujo único fim é proteger o indivíduo do outro e o todo de inimigos externos”
(SCHOPENHAUER, 1840: 147).
- O Estado é criado para salvar os homens de si mesmos, de seus egoísmos avassaladores; é interessante notarmos que segundo Schopenhauer a razão pensa a si mesma, protege a si mesma, é autônoma tanto que para se proteger cria o Estado. Como é sabido, esta razão é o próprio intelecto humano: essa capacidade de pensar o mundo não em forma de especulações vagas, mas de forma lógica.
O intelecto humano é tão misterioso que Schopenhauer chega a dizer que a própria origem da compaixão humana é misteriosa: ele sabe que a origem da moral é a compaixão, mas não consegue explicar por que um homem se deixa influenciar pelo sofrimento alheio.
Os capítulos mais importantes desta obra são 15 e o 16, porque trazem a resposta da pergunta feita pela Academia Real Dinamarquês. O capítulo 15 prepara o terreno dizendo que “a ausência de toda motivação egoísta é, portanto, o critério de uma ação dotada de valor moral”. Como o ser humano possui um instinto egoísta a ação moral terá que aplacar este egoísmo e as virtudes da “justiça espontânea” e a “caridade desinteressada” contribuem para o aniquilamento do egoísmo.
As três motivações fundamentais do agir humano são:
a) o Egoísmo (ilimitado)
b) a Maldade (chega a ser crueldade)
c) a COMPAIXÃO (nobreza moral e generosidade)
- O egoísmo e a maldade só levam ao sofrimento, a angústia, a infelicidade e ao próprio egoísmo; já a Compaixão é o fundamento genuíno da ação moral humana.
A compaixão é a “participação total imediata, independente de qualquer outra consideração, no sofrimento de um outro e, portanto, no impedimento ou supressão deste sofrimento”; a compaixão é “tornar-se motivado imediatamente pelo sofrimento do outro”. Notemos que o filósofo mais pessimista da história da filosofia dá uma atenção toda especial ao “outro”: só haverá ação ética na presença do outro. Influenciado por Schopenhauer, Lévinas também teoriza sobre o assunto.
Schopenhauer chama de Fenômeno ético à seguinte pergunta: “Por que um homem deixa-se influenciar pelo sofrimento alheio?” Como foi dito anteriormente, isso é um mistério da ética. Abstraindo a filosofia de Schopenhauer podemos notar que ele responde a pergunta com a resposta da Compaixão: os homens deixam-se influenciar pelo sofrimento alheio pela compaixão que é da natureza humana.
Em uma linguagem kantiana, Schopenhauer formula a máxima da compaixão: “não prejudiques a ninguém, mas ajuda a todos quanto puderes” (os sublinhados são meus).
Desta máxima originam-se duas virtudes fundamentais a Justiça Espontânea e a Caridade Desinteressada.
A justiça esta na forma “não prejudiques a ninguém” que tem sua raiz na compaixão genuína.
Schopenhauer faz a distinção de negativo e positivo
O conceito de positivo diz respeito a tudo que se manifesta por si mesmo, ou seja, a DOR; contrariamente, o conceito de negativo diz dos atos que suspende a dor. O egoísmo, a injustiça, a própria dor, a malevolência são em sentido positivo; a justiça, a caridade, a compaixão, a ética estão em sentido negativo porque suprimem o sofrimento. O positivo é sentido imediatamente pela consciência; o negativo é sentido mediatamente pela mesma.
Para Schopenhauer os homens são mais inclinados para a justiça por serem mais racionais, já as mulheres são mais caridosas por serem menos racionais que os homens.
Schopenhauer lança mão dos conceitos de ativo e passivo. Ativo é todo aquele que pratica uma ação e passivo todo aquele que sofre a ação. Schopenhauer pensa que a Doutrina do Direito é uma parte da moral e que este é ativo: o que as pessoas devem fazer para não prejudicar as outras (“que ninguém faça injustiça); e o Estado passivo: “que ninguém sofra injustiça”.
Sobre a justiça e a injustiça Schopenhauer teoriza fórmulas. A fórmula da injustiça é ¬¬¬¬a razão do ¬tamanho do mal causado sobre o tamanho da vantagem conseguida. A fórmula da justiça sendo a razão da vantagem que me traria o dano dividido tamanho do prejuízo que o outro sofreria.
Em expressa matemática ficaria assim:
J= V
P
Onde, J(Justiça); V (Vantagem); P (Prejuízo).
Em expressão matemática a fórmula da Injustiça ficaria:
In=T
V
Onde, In (Injustiça); T (Tamanho do mal); V (Vantagem).
É espantoso aonde chega a audácia de Schopenhauer. Para ele nenhum filósofo anterior lançou mão de fórmulas semelhantes; a crítica que faço é de como mensurar – por exemplo - vantagem que me traria o dano a outro? Penso que é uma coisa mais intuitiva do que propriamente formal. O conceito de “dano” pode ser relativo dependendo da pessoa e do contexto da situação.
Ainda no capítulo dedicado a Justiça, Schopenhauer formula o conceito de Injustiça Dupla que é quando alguém assume expressamente a obrigação de proteger outrem num aspecto determinado e – consequentemente – não cumpre, por exemplo, os policiais, os atos de corrupção e traidores em geral.
Sobre a mentira Schopenhauer distancia em muito de seu mestre Kant, enquanto este é totalmente contra a mentira, Schopenhauer é a favor – dependendo da situação em que o sujeito se encontre é viável que ele minta, por exemplo, para salvar sua vida.
Refletindo sobre este capítulo podemos pensar que Schopenhauer é quase um cientista da ciência ética visto que ele não quer uma ética fundada em teoremas soltas no ar, mas com fundamentos sólidos e realistas.
Em suma, o capítulo 17, dedicado a Justiça que deriva da compaixão, Schopenhauer defende que a justiça é não prejudicar a ninguém; que positivo é tudo aquilo que é sentido imediatamente (dor) e negativo o que é sentido mediatamente (prazer); que a Doutrina do Direito (ramo da moral) é ativo e o Estado (que tem por dever proteger o cidadão) passivo; cria fórmulas para mensurar a justiça e a injustiça; lança o conceito de injustiça dupla e - se for para autodefesa do sujeito - é a favor da mentira.
Um segundo grau da compaixão genuína é a caridade.
A caridade se alia a justiça para aplacar o egoísmo que reina nas relações humanas; a máxima da caridade é “ajuda a todos quanto puderes”. Segundo Schopenhauer Platão enxergou apenas a justiça espontânea esquecendo-se da caridade.
A caridade – assim como a justiça – é o identificar-se com o sofrimento do outro; a compaixão, praticada pela justiça e caridade, diminui o abismo que separa o eu do não-eu.
Para Schopenhauer a justiça é o fundamento do Antigo Testamento e a caridade do Novo Testamento que inclusive – pensa Schopenhauer – o grande mérito do Cristianismo foi reconhecer e pregar a caridade entre os homens, muito bem, mas o cristianismo esqueceu-se da caridade que os homens têm de praticar uns com os outros, também, para com os animais, observa o filósofo; e Schopenhauer vai mais longe dizendo que tanto o cristianismo quanto a moral vigente se esqueceram dos escravos e, acrescento, dos marginalizados pela sociedade.
Falar em compaixão, justiça, caridade, virtudes, cristianismo pode parecer um discurso de tom teológico, mas Schopenhauer quer mostrar que não, que a compaixão é um atributo experimentável e da natureza humana tanto que ele cita o altar da compaixão em Atenas; as cinco virtudes Chinesas, sendo a compaixão a mais importante delas; as inscrições mortuárias dos Hindus que tem a compaixão, também, como a virtude mais preciosa a ser observada pelos homens. Prova da compaixão é quando em momentos de necessidades e tristezas os verdadeiros amigos se comprazem com o nosso sofrer; também, o exemplo de pessoas que por compaixão renunciam a própria vida e se colocam a serviço do próximo.
Como foi dito anteriormente a compaixão é um fenômeno ético; por que um ser humano deixa-se influenciar pelo sofrimento alheio? E ainda mais, por que algumas pessoas são afetadas mais que outras? Esta é a pergunta lançada por Schopenhauer no capítulo 20 da presente obra: “Sobre a diferença ética dos caracteres”.
Por que algumas pessoas são afetadas mais que outras pela compaixão? Essa uma das ultimas perguntas que o filósofo responde. Segundo Schopenhauer o caráter do homem é inato e para comprovar ele cita a ética de Platão, Aristóteles, Kant, o Evangelho de Lucas (Sermão da Montanha), Sêneca e vários outros autores; sendo, o caráter, inato ao homem uns nascem inclinados para a compaixão outros para a maldade e outros, ainda, para o egoísmo. “Estas três motivações morais dos homens – egoísmo, maldade e compaixão – estão presentes em cada um numa relação incrivelmente diferente”, dependendo dos motivos um homem pode agir ora egoisticamente ora compassivamente. Podemos fazer um paralelo com a segunda tópica da estrutura do inconsciente formulada por Freud: Id, Ego e Superego.
Segundo o autor, no homem ao mesmo tempo em que é inato o egoísmo é inato a compaixão. Bem semelhante, também, a Platão no mito da “Carruagem” onde o homem tem dois cavalos para conduzir; o homem está em constante guerra consigo mesmo. Notamos que o fundamento da moral Schopenhaueriana não é metafísico, mas sim imanente à natureza humana, mas Schopenhauer vê a necessidade de dar uma explicação metafísica a moral, mais por exigência da Academia Real do que por vontade própria.
No último capítulo do livro Schopenhauer expõe que o espírito humano não se contenta com uma explicação imanente e experimentável, mas sempre quer uma explicação transcendente que vá além das possibilidades físicas.
Chegando ao final desta segunda parte do fundamento da moral podemos sintetizar que para Schopenhauer a moral é imanente à natureza humana, origina-se na compaixão e esta expressa-se pela justiça espontânea e caridade desinteressada.
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